Você sabe que o primeiro ato de autocuidado para nós como negros pode ser o reconhecimento de que nós merecemos ser atendidos em primeiro lugar? Vistos como humanos? Especialmente mulheres negras.” Trudy Hamilton.

Tudo que construímos até aqui no Preta.Rocks materializa um processo delicado e complexo de autoconhecimento que nem sempre é linear, fácil de ser praticado, bonito e até mesmo possível de ser colocado em palavras. Mas apesar de todas as dificuldades meu convite é o mesmo:

vamo mulherada?

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Mas porque autocuidado?

Essa poderia ser a pergunta que estimula Claire Heuchan a discutir porque o autocuidado ainda é um assunto controverso até mesmo para feministas.

Ela tece em Self-Care or Speaking Out? A Black Feminist Dilemma (Autocuidado ou falando da boca pra fora? Um dilema do feminismo negro) sobre a necessidade de em primeiro lugar nos reconhecemos como sujeitos que merecemos cuidado, amor, afeto e felicidade. Seu texto descreve uma encruzilhada que é velha conhecida de praticamente todas enfrentando racismo e outras violências: devo me calar para usufruir de uma relativa segurança que o anonimato me confere ou levantar ainda mais a minha voz?

Para Heuchan, a primeira escolha nos impossibilita de promover e participar de qualquer mudança efetiva e retira qualquer significado político da prática feminista. É quando a gente fica imobilizada. Por outro lado, quando você insiste em continuar exercendo a sua voz à qualquer custo, pode colocar em risco a sua segurança física e mental. É quando segue o baile, mas você não sabe até quando.

Você está em perigo garota.

Acredito que a autora, apesar de não ter descrito fenômeno em seu texto, está muito ciente que existe ainda uma terceira possibilidade. Sabe aquele momento em que fica complicado seguir em frente? Você decididamente quer se posicionar e participar das decisões políticas de seu tempo porém nem sempre está em condições físicas e psicológicas para.

E o quanto isso nos gera ainda mais angústia, preocupação e medo.

E a justamente aqui que o triatlo (ou qualquer outra coisa que você ama) entra. É sobre exercer a voz para si mesma em primeiro lugar, o que muitas vezes é erroneamente avaliado como egoísmo. Porque justo na nossa vez iriam chamar assim? Porque uma prática que nos faz indivíduos mais fortes e comprometidos com a nossa sociedade é visto como algo individualista?

Porque é tão perigoso que uma mulher se considere como importante e merecedora de cuidado? Ou ainda, porque ela não poderia escolher fazer qualquer coisa que lhe viesse a mente simplesmente porque ela gosta? Porque não o triatlo?

O autocuidado como falso dilema

Não é por acaso o autocuidado é um (falso) dilema, como fala Heuchan, não é acessível para todas física e emocionalmente. Mais do que nunca é preciso que estejamos cientes dos mecanismos econômicos e emocionais que nos impedem de abraçar rotinas de carinho para conosco. E partir pra cima de projetos que mudem essa realidade.

É algo que passe a ver de bonito em mim mesma.

A capacidade de cuidar de si é algo que você deve apreciar como conquista, não como privilégio. Afinal é algo pelo qual você precisa batalhar e muito. Não está dado de bandeja e nunca desgarrado de um propósito político muito importante: você.

O nosso desafio é fazer com que os mesmos instrumentos possam ser replicados de maneira sustentável para fomentar a construção de indivíduos fortalecidos e capazes de estabelecer redes econômicas, sociais, culturais, políticas, artísticas e afetivas mais coesas e prósperas.

Mas… O que é autocuidado mesmo?

Certamente você tem se deparado com o tema do autocuidado em diversas frentes. Tanto que é possível inclusive falar de um movimento ou até uma “modinha”, ainda que não haja um consenso sobre o que é isso de fato significa. Felizmente!

Heuchan e Lorde nos oferecem uma perspectiva sobre o assunto. Tanto aquela que fica parada motivada pela falsa sensação de segurança, quanto aquela que expressa sua voz em detrimento de si, estão em um lugar onde está fragilizada a necessária e tão bem-vinda relação entre aquilo que é político e aquilo que é pessoal.

São posições que não temos como manter por muito tempo. Obviamente não estamos aqui falando sobre culpar cada uma de nós que está nessa ou naquela posição, até mesmo porque muitas vezes estamos nesses lugares.

Eu me amo como eu sou, ponto.

O autocuidado é acima de tudo uma prática política e pessoal servindo ao fortalecimento dos indivíduos em suas comunidades, promovendo o exercício de sua plena cidadania e humanidade no âmbito privado e público.

Felizmente não parece haver uma sua resposta para explicar como isso será feito… Afinal, autocuidado também é a soma de práticas e narrativas que possibilitam e conferem sentido ao nosso trânsito no mundo.

É sobre as nossas vidas financeiras, os nossos relacionamentos, nossas amizades. É sobre o modo como educamos nossos filhos, temos ou não acesso à uma cultura alimentar adequada de acordo com as nossas necessidades e vontades, praticamos relações para com o sagrado.

É também sobre a vida em movimento, sobre nossas vozes e vontades, sobre a relação que nossos corpos estabelecem consigo, com as outras pessoas e com espaço das cidades e das narrativas. Uma dimensão certamente desafiadora mas extremamente gratificante que resulta da ideia de que nós merecemos nosso próprio amor, cuidado, carinho e atenção.

Esse será nosso foco!

#365DiasDeAutocuidado

Acompanhe e participe das atividades deste projeto através da nossa hashtag nas redes sociais e posts. Nesses #365DiasDeAutocuidado que vão acontecer no nosso insta a gente vai ficar toda cuidada na fita!

No final do mês vou compartilhar meus resultados com você por aqui, sempre lincando esse post. Se você também quiser participar através do seu blog, será um prazer compartilhar essa jornada com você.

Não é sobre o primeiro lugar no pódio, não é sobre um esporte sem sentido. É sobre a nossa escolha a despeito de sua capacidade de serem rentáveis, úteis ou necessárias. É sobre o direito de não ter que justificar o porque estamos fazendo esta ou aquela coisa.

É por isso que amo a ideia de ser triatleta.

Não tenho de fato a possibilidade de me profissionalizar, de um dia subir no pódio e no momento nem mesmo de completar a menor das provas. Não estou interessada em provar qualquer discurso sobre resiliência ou superação. E justamente por isso que persisto: que sentido faz uma mulher negra de meia idade e sem dinheiro fazendo triatlo?

A única coisa que dá sentido a essa jornada é aquilo que é humano.

E aqui neste blog me imagino cruzando a linha de chegada de um ironman em Kona, mesmo que atualmente os meus joelhos não me permito subir de forma confortável um simples lance de escadas. Assim também compartilho de nossas singularidades, que me motivam a reconhecer em mim e você o merecimento de carinho e cuidado em primeiro lugar.

Imagem destacada: Unsplash