Agosto é um mês muito especial. Alguns dizem que é de azar, o que me faz lembrar um tempo em que essa época do ano era de sofrimento na certa. Mas pensando bem, apesar de qualquer desgracinha que tenha acontecido, foi nada mais do que isso, uma desgracinha.

Há bons nove anos atrás, tinha acabado de me operar de um câncer que foi descoberto em seu comecinho, mas que era muito agressivo. Tive muita sorte, confesso e nunca vou deixar de lembrar da minha prima Danielle Curvello, a quem devo minha vida.

Sem ela, que foi vítima de um câncer de intestino avassalador, não teria começado meus exames da mama muito antes do que recomendam os médicos. Sem ela, não teria insistido quando recusavam a me ouvir dizendo que a dor em meu peito era meu corpo somatizando.

A gente se azunhava, mas sem ela, e todas as demais vítimas de minha família e não são poucas, certamente não entenderia que fui nada menos que privilegiada. Por ter acesso ao exame correto, por não ter precisado fazer quimioterapia, por ter compreendido o que significa ter os genes programados para ficar doente.

Agradeço a todos aqueles que me visitaram no hospital. Não foram muitos mas foram extremamente importantes para que eu não me sentisse sozinha. Minha mãe, por quem eu não pude fazer um nada quando passou por uma estória muito mais complexa que a minha. Minha tia, que tanto amo. A minha prima Rai. Meu amigo e irmão Doo. Meu companheiro que contrariou a estatística e permaneceu ao meu lado.

E ao sagrado, que estava lá mesmo que eu não soubesse ou merecesse.

Que me dariam a oportunidade de, nessa mesma data, estar de novo numa mesa de operação. Só que dessa vez para ver a Felicidade nascer. Ela que está em minha cama enquanto escrevo, que me pediu uma massagem gostosa e foi muito compreensiva com o avô ao ser informada que ele não teria nada mais que um abraço para dar em seu aniversário.

Ele, que na semana que vem cruza a fronteira dos 70 anos e que é um esteio para todos nós, mesmo quando se irrita. Mas que logo começa a contar uns bons causos e volta a sorrir. Ele que mais do que nunca se afirma como homem indígena, renascendo mais uma vez.

Agosto, um mês de muitos (re)começos. Um mês em que a gente perde a pele para virar flor, com alguma sorte. E nesse dia em que fazemos aniversário, meu desejo é que seu mês seja cheio de alegria, paz, amor e boas ideias e projetos. Ao seu gosto.