Câncer de mama são palavras que ainda amedrontam. A gente não quer falar sobre isso, não quer pensar sobre isso. Não que sequer ouvir sobre. Se você está investigando a possibilidade de ter a doença nesse momento, talvez seja assim que se sinta. Se isso é verdade este post não deva ser lido nesse momento tão delicado e importante.

Se você acabou de ser diagnosticada com doença, respire fundo e venha comigo. Quero dividir com você sentimentos sobre a vida depois do diagnóstico, algo que parecia impossível para mim até que eu mesma fizesse a minha quadrantectomia (retirada parcial dos tecidos da mama). Ainda lembro das primeiras consultas ao oncologista em que pensava como todos os outros pacientes faziam aquilo com tamanha naturalidade. Eu tinha vontade de gritar por dentro.

Créditos: Ebony. O câncer de mama vai mudar a minha vida? Créditos: Ebony.

Preciso dizer que sou apenas uma paciente assim como você. E hoje entendo completamente que nada em relação a um câncer de mama ou qualquer outro é fácil, mesmo uma simples consulta. Entendo também que nossas experiências serão distintas. Nem todas faremos tratamentos hormonais, quimioterapia, radioterapia, cirurgia. Mas existe algo que todas nós faremos após as primeiras medidas, acompanhar como a doença irá evoluir ou regridir.

É por isso que não costumo dividir a experiência de cada um de nós a partir da ideia de superação. O que diferencia a história de uma “sobrevivente” e a vida de alguém que morreu pela doença não é a força de vontade, mas sim a possibilidade de se tratar com dignidade, rapidez e afeto necessários. Quando estamos falando de mulheres negras e câncer de mama isso é ainda mais verdade.

O câncer de mama vai mudar a minha vida sexual?

Mas alguns medos são muito… Palpáveis. Como o medo de como o câncer de mama poderá afetar o relacionamento e a vida sexual. É sabido que muitas relações chegam ao fim com o diagnóstico, o que poderá ser muito frustrante. Essa foi e ainda é uma questão para mim, será que os meus seios são tão bonitos quanto eram antes? Creio que nunca mais serei tocada sem lembrar da minha cirurgia. Procuro nessas horas me voltar para alegria de estar viva, ter uma filha e muitas famílias. E me apoio em outras mulheres, lindas mulheres, que passaram pelo mesmo e carrega consigo a cicatrizes de sua história.

Sim, existem experiências que jamais são esquecidas em nossas trajetórias mas saberemos seu impacto após passarmos por elas. Ser diagnosticada com câncer de mama é assim. Você jamais esquecerá quais pessoas estiveram ao seu lado, como foi o tratamento, como você voltou aos poucos à sua vida cotidiana. É uma experiência limite, que te coloca diante da própria mortalidade e ao mesmo tempo de toda potência da vida.

Crédito: Refinery 29.

Um dos maiores medos é a perda do seio e como isso afeta a vida sexual. Imagem: Refinery 29.

Mas aos poucos, tudo isso deixará de ter o tamanho que tem e vai doer cada vez menos. E se não mudar, lembre-se de que você merece ser amada por sua beleza do lado de dentro e do lado de fora. Ainda se seja difícil, você poderá aos poucos reganhar sua vida sexual ou grande parte dela apesar das cicatrizes emocionais e físicas. Sempre busque apoio na informação e entenda como se o oncologista poderá contribuir com alguma técnica em especial.

Com o tempo você passará a entender o que é importante para conviver com o câncer de mama (como abandonar a culpa), o que te tranquiliza e quais cuidados deverá ter a partir de agora. Por exemplo, sempre cuidando da hidratação da área afetada para que não seja fragilizada. Ou avaliando se vale a pena se submeter a métodos de reconstrução das mamas após a cirurgia. Sempre lembrando que qualquer que seja sua decisão, você merece ser amada.

O tratamento do câncer de mama é muito difícil?

O tratamento pode ter muitas nuances. Algumas pacientes não precisarão fazer quimioterapia, terapia hormonal. Outras por seu acesso privilegiado a exames, poderão diagnosticar o câncer muito cedo e sequer precisaram fazer cirurgias invasivas. Para algumas uso de medicamentos poderá durar anos.

Tudo depende do motivo pelo qual você teve doença. Se o câncer de mama está ligado alguma causa genética (como é meu caso) ou hormonal por exemplo. Porém por mais simples que seja tratamento, como uma radioterapia por exemplo, nunca podemos dizer que é fácil. Ainda assim é um desafio que deve ser vivenciado com muita dignidade desde o diagnóstico até a alta.

KJ Mudday

A mamografia não é fácil, mas é muito pior não fazer. Créditos: KJ Midday.

Será preciso incorporar consultas à sua rotina e mudanças em seu cotidiano como estabelecer horários para dormir e acordar, para se alimentar, para fazer os exercícios. Isso costuma ser muito difícil para aquelas que sofrem de transtornos emocionais e afetivos. Para quem não tem acesso à informação e equipamentos médicos.

A vida após o câncer de mama não se trata de superação, muito menos de força de vontade. Mas sim do acesso ao tratamento, ao conhecimento e a possibilidade de fazer tudo isso. É por isso que não me considero uma sobrevivente. Mas sim uma mulher negra que sabia o que precisava ser feito e teve a possibilidade de fazê-lo.

O medo da recidiva e metástase pode ser vencido?

Passei muito da última década preocupada com o reaparecimento do meu câncer de mama. Mesmo agora enquanto escrevo e sinto dores no seio esquerdo, relembro com muita vivacidade desse sentimento. Pra gente é muito real, basta que uma célula do tumor sobreviva e volte a crescer de novo. É um pensamento diário à ser enfrentado por todo paciente.

Aprendemos até um nome muito diferente pra isso, recidiva. Algo que mexe com o nosso medo de morrer, uma das maiores dificuldades que você vai enfrentar. Procure ter conversas muito francas com seu oncologista  e sempre esteja amparada por uma pessoa querida nessas ocasiões. Saiba que você tem direito à apoio psicológico durante todo seu tratamento.

Créditos: bdgblog.

Algumas coisas pedem abraço, essa é uma delas. Imagem: Bdgblog.

Fique atenta aos sinais do seu corpo, jamais menospreze qualquer sentimento de medo ou insegurança. Esteja pronta a enfrentar seus médicos se preciso. Mas esteja igualmente preparada para não superestimar informações que nem sempre dizem respeito à sua doença. Aquilo que foi receitado a outras pacientes não necessariamente é bom para você.

Será preciso aprender a conviver com medo, a raiva e o desejo de enfiar o rosto no chão e ficar lá, “só” por causa de uma nova consulta. Nem sempre você estará preparada para ouvir mais uma vez a palavra câncer. Só que isso não fará o problema desaparecer. Contar com a compreensão para consigo mesmo e o apoio de amigas e familiares será muito importante.

Acontece o quê após a alta do câncer de mama?

Na realidade a alta não tem uma data para ocorrer. Não se assuste se isso não acontecer imediatamente. Para mim foram precisos exatos oito anos após a minha cirurgia. Tudo vai depender da sua resposta ao tratamento, da gravidade do câncer de mama, do acesso a bons oncologista. Muitas vezes é muito melhor não receber alta de uma médica que cuida de você com atenção, do que receber alta de um médico que não está interessado em seu bem estar.

No meu caso alguns sinais indicaram que eu estava no caminho certo, apesar de ter demorado tanto em ter alta. Recebi autorização para engravidar, para correr, para viajar e ter uma vida comum, desde que observasse alguns detalhes como não ganhar peso (o que ainda contesto), não fumar, não beber, continuar e estar sempre em movimento.

Créditos: Trip Savvy.

Você poderá mudar completamente a sua vida. Créditos: Trip Savvy.

Quando aconteceu, foi com grande surpresa. A partir daquele momento nada de fato mudou, mas aquela palavra mais uma vez me sinalizava que as coisas estavam no caminho certo. Infelizmente nem todas as mulheres terão o privilégio (na falta de uma palavra melhor) que tive e penso em todos de minha família, vivos e que foram vitimados pelo câncer de mama e outros.

Durante tratamento você iniciar as primeiras mudanças. Mas é após a alta (ou sinalizações nesse sentido) que você precisar ela decidir o que vai mudar de fato em sua vida.Tudo vai depender de quem você é, onde você mora, qual a sua profissão, qual é o acesso que você tem à informação e tratamento. Seja lá quais forem as suas decisões, tente entender que elas devem se adequar a sua vida e a sua rotina e a suas possibilidades.

Sem nunca se cobrar por aquilo que está além do que pode ser feito, sem se culpar pelo medo e pela tristeza quando acontecerem, buscando sempre ser feliz.

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Obrigada por ter lido esse posto daqui e conte pra mim um pouco sobre você. Caso você queira falar um pouco mais sobre isso, sempre estou aqui. Este um espaço para que mulheres que tiveram ou tem câncer possam conversar e se acarinhar.

Imagem destacada: Chicago Tribune