Juro que vou falar sobre triatlo mas antes disso, vamos começar com uma breve viagem ao Egito…

“O livros dos mortos diz que se uma múmia for mutilada, os deuses não poderão reconhecê-la, ela não poderá ingressar no pós-vida e ficará presa entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos”.

Nefertiti Revelada

Esse não lugar posto no documentário sobre a rainha tem completa ligação com o momento em que estamos vivendo, com leis raciais sexagenárias que estão tão bem amarradas que sequer mencionam o quesito raça fazendo com que sigamos, enquanto negros, sem acesso a uma cidadania efetiva, vivendo como cidadãs de segunda classe. São um sistema de leis Jim Crow diante de nossos olhos, sem mencionar a palavra preto ou negro. Diante desse fato estamos continuamente buscando alternativas coletivas e individuais para lidar com as causas e as consequências desse não lugar.

Nefertiti se empoderou em vida, óbvio!

Para a antropóloga que teve a pretensão de devolver o nome da rainha, a destruição do rosto de Nefertiti, foi um destino pior que a morte pois retirou sua identidade. O que está em jogo é um dos conceitos egípcios que constroem um ser, o “Ren” ou “nome verdadeiro”. É a “parte vital do indivíduo em sua jornada através da vida e do pós vida”. Aquilo que ninguém retira de você, te faz única e que tantos buscam atacar em primeiro lugar em caso de desavença. Aquilo que faz alguém ser esquecida e invisibilidade ou lembrada e considerada.

Mas notem, ainda que para a egiptologia seja mais que importante encontrar a múmia da rainha, Joan Fletcher (a antropóloga branca) jamais teve ou terá o poder de renomear a governante. Nefertiti se empoderou em vida, exercendo o papel de faraó, controlando e governando uma sistema herege e ao mesmo tempo revolucionário. Dando origem inclusive a sistemas de culto monoteístas. Um poder que precisamos tomar como exemplo nos dias atuais e felizmente, temos. O assunto aqui é o mesmo, mas um pouco diferente, não de caráter ou ordem pública mas privada.

O triatlo é para mim também.

Essa tem sido nossa preocupação como mulheres negras e temos, coletiva e individualmente, buscado respostas. Vamos então ao esporte. Não que haja muitas mulheres negras fazendo triatlo, mas justamente por isso preciso contar essa estória. Esse é um espaço que nos é continuamente negado de forma estrutural em função de não haver muitos de nós como exemplo, os equipamentos serem extremamente caros e não haver interesse em mudar esse estado de coisas. E o triatlo tem de ser para mim também.

Sempre brinco dizendo que faço triatlo no carpete da sala porque de fato nunca passei pela experiência de nadar, pedalar e correr em sequência, com uma transição de tempo adequada entre um esporte e outro. Tipo, sai da água e já sobre na bike, deixa a bike largada no chão e põe um tênis e sai correndo… Para que isso aconteça precisaria de investimento/patrocínio/apoio e a compreensão de que sou uma mulher de 40 anos com limitações de saúde, tempo e apesar de algum tempo nessa estrada sou um bebê.

Fazendo triatlo no carpete da sala

Ou seja, apesar de querer muito e me esforçar, sou uma triatleta improvável.

Ainda assim estou treinando e tudo começou com uma caminhada de dez minutos. Havia adiado o sonho demais, precisava, precisava, precisava fazer algo depois de mais uma crise de bipolaridade que quase me matou. Era isso ou nada. Comprei uma bicicleta bem simples e ainda que não conseguisse andar por causa do extremo sobrepeso em cima de duas artroses, decidi começar minha jornada. E lá se vão exatos 3 anos e seis meses. Hoje nado, pedalo e corro.

Devagar? Sim! Mas fazendo muita pose, que fique preto. Não deixei para trás um câncer de mama, a bulimia e agora fazendo treta com a bipolaridade para viver sem lacre. Mesmo sem competir em alto nível como fez Karen Newman. E foi somente nessa semana passada que entendi o sentido disso tudo, coisa que me cobrava arduamente. Porque estava tão concentrada nessa tarefa? Porque tanto esforço, inclusive deixando de lado compromissos com a família e com o ativismo, para treinar? O que havia e ainda há de tão mágico em fazer um esporte em que não há negros, em que as provas e os equipamentos são completamente proibitivos e que não consigo tempos significativos?

Foi nadando e me preparando para um triatlo que compreendi.

Justo nessa modalidade, que é meu grande pavor e amor ao mesmo tempo. Veja, tenho no meu braço um cavalo marinho tatuado que fiz quando decidi que aprenderia a nadar, mais de dez anos atrás. Naquela época minha motivação era minha mãe que nunca conseguiu superar seu próprio medo de água. Também precisava superar o fato de que quase me afoguei na praia de Boa Viagem e fui salva por alguns rapazes que passavam por ali.

Ainda não sei nadar em águas abertas e confesso que isso me dá pavor. Quando descobri isso, fiquei algumas semanas paralisada, como se tivesse desaprendido a nadar até mesmo na piscina. Mas sei que não importa quanto tempo leve, vou conseguir sim… E não importa se a raia estiver cheia de homens brancos que olham para meu e demais corpos negros na piscina de forma hostil, como se nossa presença estivesse atrapalhando seu desempenho.

O nadar para fazer um triatlo me ensinou que devemos continuar apesar do medo.

Foi sonhando com um triatlo e andando de bicicleta que compreendi.

Justo eu que não saia mais de casa, com medo de por a cara preta na minha própria rua. Que ficou dois anos no sofá vermelho, deitada chorando, sem entender como sair dali. Justo eu que fui ensinada a ser invisível para não ser a próxima vítima de uma sociedade racista, que não conseguia enfrentar qualquer situação de conflito e responder a agressores com a devida palavras. Que fui educada para ser educada acima de tudo, para não desafiar a norma.

No trânsito, com a bicicleta, preciso ser o mais visível possível para meus agressores. Preciso vestir a camisa mais chamativa e demonstrar confiança diante de um carro que me esmagaria num piscar de olhos. Preciso encarar o fato de que qualquer um poderia me derrubar, basta ter a intenção e a oportunidade para isso. Tenho de me concentrar no trajeto acima de tudo, no objetivo estabelecido e não temer por um segundo quem poderia me desviar dele.

Foi assim que o triatlo me ensinou o poder da visibilidade.

Foi com o triatlo e correndo que compreendi, que era por amor.

Por amor ao meu pai, para que um dia pudessemos nos abraçar na chegada da São Silvestre, prova que ele mesmo nunca conseguiu realizar. Muito menos eu, mas está nos planos! Percebi que as pedras que ele carregava na mochila para tentar chegar mais longe eram muito mais que isso, éramos todos nós, todos seus quatro filhos. Assim como corri uma meia maratona grávida, carregando Ayo na barriga.

O mundo nos diz que nada dessas coisas são possíveis.

Não é por acaso que somente esse ano Thiago Vinhal será a primeira pessoa negra a participar de uma prova em Kona. Agora bote na conta que Fernanda Keller tem pelo menos 25 anos de carreira no mesmo esporte. Porque demorou? O mundo do triatlo é estruturado para sejamos poucos, estejamos na era dos primeiros e não haja a percepção de que o triatlo é um dos esportes mais lindos que existe. E que é feito para nós também. Não porque somos mais fortes ou resistentes. Não por que não nos disseram que não conseguiríamos, mas porque nós simplesmente queremos e temos esse direito.

Com o triatlo senti o que é empoderar a si mesma.

Por isso me referi ao termo egípcio Ren, o nome verdadeiro e o documentário Nefertiti revelada. Apesar de vivermos e lutarmos em sociedade, de sermos exemplos uma para as outras e espero ter a oportunidade de falar mais sobre atletas que me fascinam, existe algo que nos faz únicas. E o trato desse algo é aquilo que torna possível o fenômeno o ato de “dar poder a si mesma”. Um poder que é criado por você mesma e não precisa ser concedido. Ou retomado, como argumenta o documentário sobre a rainha.

E daí a gente já pensa também na ideia egípcia de “Ka” que é o conceito de um duplo que nos acompanha e na pergunta que nos é recorrente – o que estaríamos fazendo se não existissem o racismo, a misoginia, o machismo, o elitismo, a psicofobia e opressões afins como transfobia? O que faríamos se todos não estivéssemos nesse lugar entre a vida e a pós-vida, a cidadania e a não-cidadania, o mar aberto entre África e Brasil? Esse talvez seja um exercício que alguns considerem até desumano mas… E se?

Aprendi com o triatlo que o empoderamento é processo.

Talvez por isso esse pavor de conseguir nadar que tenho enfrentando. Porque empoderamento é assim, ele acontece, ele acaba, ele recomeça. Emporamento é processo. E apesar de ter essa esfera muito individual,  também é coletiva. É olhar para si e demais ao mesmo tempo. Para onde vamos agora que os retrocessos acontecem de maneira mais acelerada e atacando nossos direitos mais fundamentais? Vamos fazer triatlo? Não, não vamos. Porque ele não é o fim, apenas um meio.

A vida também não será uma sucessão eterna de momentos felizes mas cada sorriso depois de uma hora na piscina, na bicicleta ou na ciclovia são verdadeiros. Sigo uma mulher preta bipolar com transtorno alimentar que chora, que se rasga, que está desempregada. Só que agora, sou uma mulher negra de pé, como dizia meu tio avô, seu Tenô, um cabloco da baia de São Marcos, lá pras bandas da ilha do amor.

No triatlo e fora dele

Gostaria apenas de insistir na tecla de que o autocuidado, para aquelas que tem acesso, também é arma como dizem feministas como Audre Lorde e bell hooks. Que a construção de nossos “nomes verdadeiros” e da realização plena de nosso “ka” é necessária. E que tudo isso é um sistema, porque tudo aquilo que aprendi com o triatlo, também vivenciei com a escrita, ferramenta que me permite contar essa estória para vocês e que não exercia há um bom tempo…

E pensando nesse mar aberto, não posso deixar de mencionar em respeito nossos ancentrais. Jogados ao mar, durante as noites mais que escuras, condenados à morte. Ali, diante do retorno diante dos deuses tal como Nefertiti revelada, a única referência possível estava em si. O mesmo acontece agora, nesses tempos de retrocesso em que só temos umas às outras e em muitas situações, nós mesmas… A única forma de resistência possível foi e ainda é ter como ponto de refêrência seu próprio Ori (ou cabeça, nas religioões de matriz africana) e as demais.

E nós estamos fazendo o mesmo. No triatlo e fora dele.

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Obrigada por ler esse texto até o final.