O assunto hoje é delicado. Se você tem uma relação sensível com tema peço que não leia esse texto ainda que ele tenha sido feito para dialogar com mães que tem transtornos alimentares. Em caso de gatilho, interrompa a leitura imediatamente e procure apoio com alguém de sua confiança.

Anorexia, bulimia nervosa, compulsão alimentar, ortorexia… Tudo isso nos diz respeito. Transtornos alimentares atingem mulheres de todas as faixas etárias, classes e etnias. Algumas delas são mães que precisam encarar todos os dias a tarefa de conviver com uma imagem corporal distorcida, o próprio transtorno ao mesmo que educam e amam seus filhos.

Caminhos de carinho e autocuidado

Falar sobre o assunto é muito difícil.

A primeira coisa que a gente aprende a fazer é a esconder nossa relação adoecida com a comida. Queremos que todos a nossa volta pensem que está tudo bem. E com tanta culpa guardada pode parecer quase impossível encontrar caminhos de carinho e cuidado para a gente e para nossos filhos.

Mas existem possibilidades.

Gostaria de conversar especialmente com você que tem muita consciência de sua relação com a comida e que, sentindo na pele e na carne os efeitos da gordofobia e outras violências como a fome e a purgação, está preocupada com os efeitos de tudo isso na sua família.

Como podemos falar sobre isso com as crianças?

Muito possivelmente essas discussões serão muito delicadas e vão demandar muita coragem, não é o tipo de coisa que você faz na hora do jantar sem se preparar para falar. É provável que uma mãe preocupada tenha um mínimo de sensibilidade para abordar esses temas em ambiente protegido e confortável para todos.

E na hora agá, busque palavras simples e siga seu coração.

As crianças podem ser mais generosas do que a gente pensa, mais objetivas do que a gente espera. Seja delicada e honesta sobre o que sente e deixe bem enegrecido que isso não te faz amar menos seus filhos, nem afeta sua autoridade. Não recuse ajuda caso os pequenos estejam em posição de fazer isso por você, mesmo que seja com um abraço.

Lidar com os pequenos talvez seja o menor dos seus problemas…

Tudo por culpa da mãe!

É comum que mães com transtornos alimentares sejam acusadas de impor essa ou aquela dieta sempre pensando na perda de peso de toda a família. Nossos filhos sempre serão considerados magros ou gordos demais, tudo por culpa da mãe é claro.

E não interessa se seus filhos herdaram um biotipo familiar, o famoso puxou o pai ou a família da mãe por exemplo. Qualquer dieta mesmo aquelas que não tem o intuito de fazer perder peso serão consideradas inadequadas. Estamos falando de em mães, o que não é motivo de julgamento e críticas?

Não quero aqui oferecer uma receita de bolo. Afinal cabe a você, mãe com transtorno alimentar, encontrar dentro de suas realidades a resposta para o problema tão complicado, sempre com ajuda de uma equipe multidisciplinar.

Mas nunca, nunca mesmo, aceite esse rótulo de violência. Você é aquela que precisa de ajuda e não de gente apontando todos os dedos para você. Ouça com cuidado aqueles que assumem uma postura colaborativa mas fique longe das críticas tóxicas e destrutivas.

O nome disso é autocuidado.

Um convite à reflexão

Numa sociedade que se sente no direito de julgar mulheres, também aquelas com transtornos alimentares, o quanto é violento fazer com que se expliquem a todo momento sobre seu próprio peso ou de suas crianças? Essa é uma pergunta urgente. Porque é tão complicado acolher essas mulheres?

É muito simples – mulheres convivendo com transtornos alimentares estão em sofrimento. Tudo que elas não precisam é do seu julgamento. Antes de qualquer comentário, cale-se duas vezes para entender como pode ajudar a combater essas doenças. Um abraço é tudo o que muitas precisam nos momentos logo após episódios de purgação e compulsão alimentar.

Se deixe levar pela emoção. É bastante dolorido ver aqueles que amamos em situação de sofrimento, mas perder a cabeça nessa hora não ajudará em nada. Tente manter a cabeça fria e pensar como construir diálogos possíveis em momentos oportunos. Nos momentos de crise, o melhor é adotar uma postura acolhedora e nunca de confronto.

Existe uma diferença nítida

Caso você perceba que a situação é tão complexa a ponto de colocar em risco (((de verdade))) a saúde das crianças, pondere sobre a possibilidade de uma conversa muito franca sobre o assunto. Mas nunca em momentos críticos repito. Sempre em ambiente confortável para todos. Isso é um ponto crucial na criação de um sistema de autocuidado é apoio (((de verdade))) para uma mãe com transtornos alimentares.

Se você quer ajudar alguém que ama, busque uma aproximação delicada mas nunca num tom de acusação ou piedade. Nenhuma mulher tem de aceitar críticas desconstrutivas e violentas, para uma mãe com transtornos alimentares isso também é regra.

Ai meu deus, não!

E se você mãe está preocupada com o modo como as crianças estão se alimentando, uma boa ideia é começar pela própria opinião da criança. Observe se ela está ciente de sua saciedade, a compreende e respeita os horários e teor das refeições. Existe uma diferença nítida entre crianças saudáveis e aquelas que reagem precocemente à gordofobia.

Caso a criança passe a tecer comentários sobre o próprio peso, é hora de muito diálogo e paciência. Lembre-se que existem todo um sistema de valores gordofóbicos que certamente motivaram esse fenômeno. Em alguns casos, é a escolinha e a televisão que transmitem mensagens indesejáveis sobre o assunto.

Não é culpa da mãe, certo?

Nunca!

Tenha em mente que somente um profissional da área pode  te ajudar a entender o que se passa com você e indicar o melhor tratamento. Se uma vida em que você tem uma relação mais tranquila com a comida parece algo distante, não se desanime. Existem saídas e conversar é uma delas.

Imagem destacada: Unsplash