Uma atleta improvável - Preta.Rocks

Uma atleta improvável

Olá, meu nome é Charô.

Sempre fui capaz de sonhar. Mas um dia, quando acordei, isso havia sido roubado de mim pela bipolaridade, pelo transtorno alimentar. Havia inclusive desistido de viver, procurei abrigo no cigarro, na bebida. O sonho não era uma possibilidade. A corrida foi a modalidade que me ajudou a superar os vícios e um câncer de mama. E me fez lembrar que eu tenho um sonho, um deles, um dia completar uma prova de triatlo.

É algo que sempre pareceu distante, impossível, mas… Não existe a opção de não completar. Não sei quando vai acontecer, já estou há dez anos sonhando. Aos 40, decidi que não poderia mais esperar. Nada iria me impedir, nem a dor no joelho, nem a falta de infraestrutura, nem o próprio medo, o maior dos inimigos. Muito menos a vergonha de dizer para mim mesma e para o mundo que esse é sim um dos meus sonhos. Sabia que seria complicado, porque uma vez dito em voz alta, não poderia voltar atrás.

E disse para mim mesma. Saia correndo garota. Mas não sem antes nadar e pedalar.

Somente agora reuni algo próximo das condições ideais para fazer isso. É um esporte caro. Envolve mais que força de vontade, foco, fé e força. Precisa de ortopedista, nutricionista, tempo para treinar duas vezes por dia, treinador, academia, piscina, tênis, bicicleta especial, que é de segunda mão mas que já é tão superior ao que tinha antes. Precisa de carro pra chegar nos locais de prova e treinar transições (mudança de um esporte para o outro), grana pra pagar as inscrições, filtro solar, roupa com proteção UV.

Então na realidade nunca pratiquei, isso vai acontecer apenas quando o dia da prova chegar. Daí terei ideia do que é o esporte que, na verdade verdadeira, não importa. O mais importante é aquilo que faço enquanto imagino, que nada mais é que a própria capacidade de sonhar. Me sinto viva, para além de simplesmente sobreviver. Talvez a palavra não seja superação, mas consigo entender e gerenciar melhor os altos, baixos e as crises de pânico e agressividade da bipolaridade, o transtorno alimentar, com a minha personalidade compulsiva.

Consigo conviver com o pânico de ter um câncer novamente, viver com a mutação genética que me programa para que a doença volte, com o estresse de me submeter a cada seis meses a todos os exames novamente. Não estou reclamando, me sinto extremamente grata de ter acesso a essa infra estrutura de poder fazer exames na regularidade adequada, mas de tanto ver tantos dos meus morrerem por nada, é um estresse. Porque vai que acontece de novo e eu tenha de mais uma vez convencer os médicos de que estou mesmo doente?

O triatlo é apenas uma desculpa, mas também é o que me impede de estar morta em vida. Me faz viver. Não pelo esporte em si, que poderia ser qualquer outro como já foi, mas pelo desejo que motiva e coloca em movimento. É algo pelo qual vale a pena sofrer, acordar cedo, perder festa, ficar longe da filha. Porque no final, terei atravessado a cortina espessa que embaça a minha visão e me faz ver tudo cinza. Meus olhos não estarão mais doentes e quando finalmente encontrar aqueles que amo, serei eu mesma.

Mas ser triatleta não é apenas um sistema de autocuidado, até mesmo porque ele não faz milagres. É apenas um sonho, um deles, que estou a realizar. E tenho muitos. Dar a volta no perímetro da cidade de São Paulo de bicicleta é um deles. Quem sabe escalar? Ou ainda ser uma aventureira dessas de verdade, que planeja expedições para os confins do mundo sabe? Em sonho vale tudo! Quem sabe um dia chego aos polos ou quem sabe, ao “Fim do mundo”!

Nasci para estar ao ar livre, conhecendo lugares diferentes, pessoas diferentes, praticando esportes. Falando com pessoas, dando risada e sabendo de estórias que as pessoas não costumam contar ou nem sempre querem ouvir. O que me motiva é a descoberta, o novo, o inexplorado. A beleza, a felicidade e a alegria de estar viva. Não mais o medo e o silêncio, aquilo que me foi imposto como mulher negra, de ascendência indígena e nordestina, periférica e que nunca se submeteu a tudo isso, pagando como muitas de nós um preço alto demais por isso, a própria saúde.

Mas deixa eu te contar como começou essa coisa meio esporte, meio aventura na minha cabeça. Vendo os Shurmann e ouvindo suas estórias na televisão e depois lendo os livros de Amyr Klink. Depois, vendo Fernanda Keller na televisão. Mas como muita coisa nessa vida e como muitas de nós, nessa época ainda acreditava que não era pra mim. Mas um dia, ainda sob o efeito da gordofobia, decidi ir para uma academia pelos motivos errados. A coisa boa dessa droga foi ter encontrado uma corredora negra. Estava na esteira, altiva. Claro que não me aguentei quando ela me disse – você pode também.

Sério?

Ainda fumava, mas já tentava correr.

Quando minha prima faleceu em decorrência de um câncer, já não era uma alternativa fumar. Ainda não havia descoberto a mutação genética que carregamos, mas sabia que não poderia brincar com a sorte. Foram quatro tentativas para parar, até hoje tenho vontade. Mas correr segurava as pontas. Segurou a bipolaridade durante a gravidez até que um médico desinformado me disse que deveria parar (nessa época era o explodir da corrida em alguns estados, mas não se sabia que se uma pessoa corre antes da gravidez, pode continuar correndo).

Aos seis meses corri uma meia maratona. Felizona. O que fez mal foi parar. Coisa que não havia feito nem durante um câncer de mama. Veje. Parar foi simplesmente orríveu! Depressaum, agressividade, distúrbios alimentares voltando. Isolamento, distância até da família. O joelho foi piorando. São coisas que ainda sinto, lógico. Tenho ciência de que será assim sempre. Ou a relação com o corpo, que na época se tornou de estranhamento. Sentia como se fosse apenas uma cabeça em cima de uma corpo adormecido. Era nada menos que a gordofobia agindo.

Daí que já se passaram 5 anos. Descobri que estava grávida numa prova. Parei durante a gravidez. Quando minha filha fez 4 anos me joguei e pensei que não era hora de pensar. Estava sofrendo Confesso que me sinto meio estranha de falar sobre atividade física, mantras, alimentação. Mulher preta também pode? Mas lembra do tan tan tan ran tan, tan tan? É mais forte, sou assim desde criança quando ensinava as amigas a fazer aula de aeróbica. Obrigada Flashdance e as amiguinhas que faziam balé…

É pra gente também. Porque dá um troço quando a gente vê as manas correndo, andando de bike e até nadando, nem que seja pela televisão. Ou ainda quando a gente cruza uma preta na ciclovia andando, andando de skate, patins (outro sonho). Não sei muito bem explicar, mas é tipo um GO SISTAH, sabe. E que bom poder partilhar essa sensação de um ponto de vista de uma preta, velha, bipolarzona, antissocial, com problema nos joelhos… Improvável mas não impossível. Porque quem estabelece as metas sou eu.

Por enquanto, o que posso fazer é compartilhar perspectivas! Porque acontece que tem dia de bosta que a gente não acredita em nada, quer mais é mandar tudo e a todos às favas. Até mesmo porque correr/pedalar/nadar não resolve tudo se é coisa isolada, no meu caso precisa de muito mais, pra alguns resolve. Mas isso não é sobre atividade física, é sobre sonhar, sonhar, sonhar e realizar contra todas as possibilidades. O mundo está dizendo que não mas a gente vai mesmo assim. E ponto final.

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