Tabagismo, essa palavra que nem sempre encontra lugar na agenda feminista. Porém as estatísticas estão postas, nós mulheres (e ouso dizer nos mulheres negras) estamos morrendo como moscas vitimadas pelo tabaco.

Dia 29 de agosto além de ser o Dia da Visibilidade Lésbica, foi o Dia Nacional sem Combate ao Fumo. Em respeito à data, adiei um pouco esse post. Mas chegou a hora. É um assunto que me preocupa na mesma medida em que vejo mais e mais meninas jovens fumando.

Precisamos falar sobre isso. Farei um textão pensando sobretudo em quem já passou por isso e está em busca de informações. E também para que você amiga feminista faça o mesmo movimento que estou fazendo aqui, construindo linhas de raciocínio sobre o assunto.

”O hábito (sic) de fumar é ou foi presente na vida da metade (51,%) das mulheres entrevistadas. Das que declararam ter esse hábito, a metade continua fumando, cerca de 25% têm o tabagismo como hábito.

Entre as ainda fumantes, predominaram as mulheres autodeclaradas como negras. Quanto ao início do hábito de fumar, ao completar 14 anos de idade 21,4% destas mulheres faziam uso do tabaco e aos 25 anos, cerca de 96% já eram tabagistas.

Poucas mulheres, menos de 5% começaram a fumar na idade adulta. Cerca de 53% das filiadas entrevistadas fumam há mais de 16 anos, havendo quem tem o hábito de fumar há mais de 50 anos. O consumo de até uma carteira de cigarros por dia é o padrão encontrado entre 90% das fumantes entrevistadas.”

Pesquisa de gênero e tabaco  é nada menos que alarmante. Mais ainda se pensarmos que o tabagismo ainda não é entendido por muitas de nós como uma agenda feminista tão urgente quanto à justiça sexual e reprodutiva, por exemplo. Porém existe um bom motivo para ser assim.

Se por um tabagismo ainda é mal compreendido, na outra ponta um fenômeno silencioso segue a plenos pulmões. A realidade é que as medidas que temos contra a propaganda de cigarros ainda são insuficientes. A realidade é que os lucros estão aumentando e as projeções para 2025 são otimistas (em inglês).

A industria do tabaco segue em propaganda.

O tabagismo ainda é sinônimo de força?

Essa ainda é uma ideia que encontra eco entre muitas de nós, mulheres. Ainda associamos o vício em tabaco com força, com potência e resiliência contra o machismo. O que demonstra um ponto interessante, mesmo sem propaganda na televisão a indústria que vende o tabagismo continua chegando aos nossos inconscientes de maneira efetiva.

Mas como?

Em primeiro lugar estando ativa em lugares que não identificamos como propaganda, por exemplo, assediando organizações feministas, universidades e/ou propagando que estão “construindo um futuro sem fumaça”. O que chega a ser curioso, afinal nunca se comprometeram a colaborar com um cenário em que não haja mais cigarros.

Isso não é de modo algum contraditório, como pensam alguns. Está em pleno acordo com a relação histórica que fabricantes de cigarros tem com o feminismo, pelo menos em sua edição branca. Vejamos o caso de Eduard Berrnays, o inventor de um campo profissional chamado Relações Públicas e que é responsável por inúmeros anúncios de cigarros feitos para o público feminismo.

“Recognizing that women were still riding high on the suffrage movement, Mr. Bernays used the equality angle as the basis for his new campaign. He convinced a number of genteel women, including his own secretary, to march in the 1929 Easter Day parade down Fifth Avenue and light up cigarettes in a defiant show of their liberation.”

“Reconhecendo que as mulheres ainda estavam na crista da onda do movimento sufragista, o Senhor Bernays usou o viés da igualdade como base para sua nova campanha. Ele convenceu um número sem mulheres gentis, incluindo sua própria secretaria, a marchar na parada do dia de Páscoa de 1929 pela Quinta Avenida e acender cigarros numa atitude provocativa para demonstrar a sua liberação.”

Fonte: Three key moments in the history of marketing tobacco tão women.

O tabagismo e a não propaganda

O trabalho de Bernays ecoa ainda hoje, sobretudo entre mulheres jovens, inclusive. Um decisão que foi tomada ainda nas primeiras décadas do século passado com consequências sentidas até hoje. É aterrador que frases de liberação (ou empoderamento, como diriam algumas hoje) ainda usadas por muitas de nós estampadas em embalagens de cigarro.

“Um antigo preconceito foi vencido”, “Fumar é acreditar”, “Seu treinador de canto recomendou um cigarro leve”, “Acredite em si mesma”. Esses são os valores que Bernays utilizava para que mais e mais mulheres se tornassem tabagistas. Não por acreditar no movimento mas por acreditar que consumidores poderiam ser facilmente manipuláveis.

Ou seja, a indústria do tabaco se apoia na ideia de que nos mulheres não temos agência e que o próprio movimento feminista poderá (e será) ferramenta de cooptação de mais fumantes. A ferramenta do mestre desmantelará a própria casa. Irônico se não significasse tantas mortes.

Créditos: Stanford Research into the Impact of Tobacco Advertising.

O tabagismo na rede social

Um dos exemplos é o silencioso uso das redes sociais pela indústria para promover o doença. Uma pesquisa (em inglês) analisou 8000 posts numa rede social de imagens onde a sua personagens usavam tabaco. Surpreendentemente, a exibição de marcas e cigarros em “smoking selfies” são um dos sintomas dessa propaganda sem propaganda.

Essa é uma das estratégias que tem garantido o lucro da industriário tabaco, pelo menos no Brasil. O lucro da Phillip Morris subiu no segundo trimestre do ano passado, chegando a quase dois bilhões de reais.

Um cenário que se alia a um paradoxo. Embora a indústria do tabaco acredite que somos seres sem agência, ela vende a ideia de que o tabagismo é o exercício da nossa própria liberdade, fazendo com que até mesmo muitas feministas se sintam perdidas. Afinal, fumar é uma escolha ou uma doença?

O tabagismo como doença

Um dos caminhos para encontrar uma resposta é entender que, tal como é vendido pela indústria, o tabagismo é uma doença que não afeta o desejo de inclusive, deixar de fumar. É por isso que as pessoas até querem parar de fumar, mas não conseguem.

Associar o cigarro a uma escolha pessoa nada mais é que uma artinhanha de quem o vende, para inclusive fazer com que pareça inofensivo. Porém, ainda que o vício tenha caráter psicológico, não quer dizer que o tabagismo não seja uma doença. Um doença que não está ligada à perda da ciência do que é certo ou errado para si mesma.

Um dos anúncios de Bernays em particular demonstra o tamanho do desafio. Fala que o cigarro é um bom alado para emagrecer. Afinal, melhor tabagista que gorda, o que faz todo sentido para essa sociedade gordofóbica em que estar acima do peso que se convencionou como aceitável é um crime. Sabemos que fumar faz mal, mas adiantou usamos esse “método” para perder peso.

E para emagrecer valeria tudo, até mesmo morrer fumando.

Tabagismo e natação combinam?

É preciso que haja alguma luz no fim do túnel e há. Para algumas pessoas a natação poderá ser o único método usado para parar de fumar. Esse é o caso das pessoas que desejam parar e conseguem sem o uso de medicamentos por exemplo.

Para os demais, como foi o meu caso, nadar não foi suficiente. A verdade é que houve momentos em que eu nadava e fumava, sem a menor culpa e apoiada pela ideia e de que iria fazer uma coisa de cada vez.

Sou inclusive a favor de se manter o tabagismo em casos extremos em que tirar o cigarro poderia ter um efeito adverso. Mas isso apenas em casos muito complicados. Não há motivos para não tentar parar agora mesmo, ainda que seja a enésima tentativa.

Parar traz muitos benéficos!

E fazer isso nadando vai te mostrar que o tabagismo é uma mentira. Você não será mais livre fumand, aliás muito pelo contrário. Será vitimadas pela indústria do tabaco. E vai descobrir que está respirando muito mal. E falo isso se vocês, como eu, acredita(va) que o cigarro fazia respirar melhor e era um antídoto para a ansiedade.

Mesmo que você ainda seja um fumante, nadar vai te mostrar isso aos poucos. Fazendo com que perceba como o tabagismo está roubando seu fôlego e sua vida. Parar de fumar é possível.

E lucrativo.

Por hora, apenas pense nisso. Já vale muito a pena. E se discordar, vamos abrir o debate. Cola aqui e me conta!